• Revista Maxxi

Matão: Tempos d’ouro

Atualizado: 13 de Ago de 2020


Na Matão da década de sessenta, tal como nas fábulas de escritores europeus, o ouro corria pelas ruas da cidade, transformando as vidas dos habitantes, trazendo cultura e recursos para nossa terra da saudade. O ouro por aqui dava em árvores que cercavam todos os entornos. Foi nessa época que Matão despontou como uma das maiores regiões produtoras de suco de laranja do mundo. Na época das safras eram centenas de caminhões que se enfileiravam nas ruas do pequeno centro da cidade, trazendo as cargas para serem industrializadas. Estas filas tomavam avenidas hoje importantes, como a Prudente de Moraes indo até na confluência com a Siqueira Campos. Irritando por vezes os moradores com os barulhos quase uníssonos dos “manecos” dos caminhões a acionarem e desacionar os freios. Não eram só os sons dos freios pneumáticos dos fenemês que soavam por vezes estranhos aos moradores, junto com a laranja vieram os estrangeiros, dominantes nas técnicas de processamento deste fruto. Não raro, se encontravam germânicos trajando suas longas indumentárias pelo centro da cidade.


Tempos depois novas fábricas surgiram, ao lado da linha férrea, numa área de mais de trinta mil metros quadrados, foi montada uma fábrica de licores, vinhos e bebidas cítricas, obtidos a partir do processamento da laranja e de outras frutas. A fábrica contava com um terminal de carga que permitia que seu interior fosse acessado pelos vagões, num modelo semelhante ao que fora construído anos antes na “fábrica de óleo”. Funcionários atentos, entre eles muitas mulheres, formavam um verdadeiro batalhão que separavam manual e cuidadosamente as frutas que seriam processadas das que seriam descartadas. Para as indústrias matonenses vinham todas as manhãs dezenas de ônibus com trabalhadores de cidades vizinhas a completar a mão de obra necessária ao empreendimento. Isso acabou fazendo nascer tempos depois nas fazendas e sítios de famílias tradicionais como a família Cardim e Silveira Leite que cercavam uma das fábricas, grandes bairros, como o Bairro Alto, Jardim do Bosque e nas décadas seguintes a Vila Cardim … No então distante bairro de Toriba, agricultores locais também montavam suas fábricas. Assim, surgiram a Frutopic e Central-Citrus, sendo que estas fábricas despertaram o interesse de outros estrangeiros nestes negócios, desta vez os franceses, que trouxeram mais um toque europeu a nossa provinciana cidade.


Por muitas vezes, estas fábricas faziam o papel que deveria ser do Estado, provendo aos seus funcionários, lazer, educação e saúde, mantendo dois clubes de recreação, o Santa Carolina, localizado na rodovia Faria Lima e o ADC atual AMEL, além de junto com outros empresários fomentarem através do grupo GEMA a reforma da então Santa Casa, dando um passo decisivo para o avanço da saúde no município.


As benesses destas empresas, faziam inclusive os natais ainda mais luminosos, dando brinquedos sofisticados aos filhos de todos os seus funcionários, além de uma farta cesta de natal, onde possibilitou a muitas famílias simples conhecerem iguarias como, copa e queijo provolone.


Contudo, com a internacionalização dos negócios nos idos dos anos noventa estes personagens começaram a desaparecer das nossas ruas, já não se via aqueles trajes longos nos invernos, como não se via tanta intervenção na atuação estatal. Os tempos eram outros, mas a contribuição e as histórias deixadas nos tempos do eldorado matonense ficarão para sempre em nossas memórias e em nossos olhos marejados de saudade.


POR JORGE INNOCÊNCIO DA COSTA


Foto: Carlos Alberto Diniz

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